Projecto Final – Dislexia – Parte 1

Outubro 7, 2007 at 8:10 pm (Projecto Final)


Teoria Mínima Sobre a Dislexia

De todas as dificuldades de aprendizagem, a dislexia é uma das que mais tem interessado psicólogos, pedagogos, pediatras e outros profissionais interessados no sucesso e/ou insucesso educativo.

Etimologicamente, a palavra dislexia significa ter dificuldades na linguagem. Na acepção actual refere-se a problemas de leitura, ou seja, transtorno na aquisição da leitura.

Pode definir-se dislexia como sendo “uma dificuldade duradoura na aprendizagem da leitura e aquisição do mecanismo, em crianças inteligentes, escolarizadas, sem qualquer perturbação sensorial e psíquica já existente” (Fonseca, 1999). Ou ainda como “uma desordem, que se manifesta pela dificuldade de aprender a ler, apesar de a instrução ser a convencional, a dificuldade de aprender a ler, apesar de a instrução ser a convencional, a inteligência normal, e das oportunidades socioculturais. Depende de distúrbios cognitivos fundamentais, que são, frequentemente, de origem constitucional” (Critchley & Critchley, 1978).

Mas o Modelo Conceptual do trabalho que me propus a criar não se prende com o diagnóstico do problema. Fiquei entusiasmada ao saber que profissionais da área de Ensino Especial já estão a desenvolver mecanismos digitais de detecção deste problema. Como complemento a este projecto, o meu trabalho irá ter como objectivo a intervenção, a ajuda às crianças de 6/7/8 anos a quem já foi diagnosticada esta condição.

Há vários estudos sobre a dislexia, e são, na maioria, muito diferentes no que toca às causas da dislexia. No entanto, como esta parte não tem directamente a ver com o meu projecto, não a vou considerar nesta análise.

O que já me diz respeito são os estudos sobre os diferentes tipos de dislexia. Segundo González (1996), há dois tipos de dislexia, em função da alteração primária linguística ou visuoperceptiva:

  • Dislexia do tipo auditivo-linguístico, com problemas fonológicos acentuados e que implicam disfunção do hemisfério esquerdo.
  • Dislexia do tipo visuo-perceptivo, com problemas visuo-espaciais e visuo-perceptivos, implicando disfunção do hemisfério direito.

Há também autores que referem um terceiro tipo de dislexia, a mista, que combina os dois tipos que referi acima.

No entanto, como refere González, todos os tipos de dislexia têm uma tónica comum, que é o facto de a dislexia ser, em si mesmo, um problema eminentemente linguístico em que a leitura/escrita se apresenta problematizada ou ao nível fonológico, ou ao sequencial ou ao visual.

Defini que o meu projecto terá como objecto a dislexia do tipo auditivo-linguístico. Daí achar importante descrever um pouco este tipo de dislexia.

Dislexia Auditiva
Características gerais do comportamento

  • Dificuldades subtis na discriminação de sons
  • Não associação dos símbolos gráficos às suas componentes auditivas
  • Não realização dos fonemas com monemas (parte com o todo da palavra)
  • Confusão entre sílabas iniciais, intermédias e finais
  • Problemas de percepção auditiva
  • Problemas de articulação
  • Dificuldades em seguir orientações e instruções
  • Dificuldades de memorização auditiva
  • Problemas de atenção
  • Dificuldades de comunicação verbal

Modelo conceptual

O Modelo Conceptual deste projecto ainda está numa fase bastante imatura, no entanto, algumas decisões já foram feitas no que se refere à formulação deste modelo.

Em primeiro lugar é preciso definir que o CD-ROM em questão terá duas áreas completamente distintas em termos de conteúdo. Por um lado, a área dedicada aos pais e educadores que irão usar esta plataforma de forma a ajudar crianças com dislexia. Por outro, os exercícios direccionados a essas mesmas crianças.

O CD-ROM será optimizado para a resolução 1024×768, por ser o mais recorrente em estabelecimentos de ensino e computadores pessoais mais recentes.

Na área dirigida aos pais e educadores, o conteúdo será relacionado com a utilização e limitações do CD, as especificidades das crianças que sofrem este tipo de problemas, etc…

Em termos de design, vai ser algo muito sóbrio e muito prático, sem metáforas muito complexas, como simples setas e desenhos muito figurativos do que um certo botão faz.

As tarefas serão accionadas através de cliques, algo muito directo e fácil de usar, que não coloque entraves a nível de usabilidade. Já foi feito um pequeno esboço daquilo que será esta plataforma, mas sem o uso de metáforas. Simplesmente uma pequena ideia a nível de design.

Na parte que se refere às crianças, há vários elementos a ter-se em conta. Primeiro, em cada 9 disléxicos, só um é do sexo feminino. Logo o design terá algo a ver com o sexo masculino e as suas preferências nas idades 6/7/8 anos.

Não haverá animações, o design será muito directo, para que não seja ainda mais recorrente o factor distractivo tão inerente às crianças disléxicas. No entanto, os exercícios (descritos mais abaixo) terão que ser apelativos a crianças com estas características. As cores e as fontes serão personalizáveis. Os fundos serão simplesmente uma cor sólida, pois padrões serão apenas ruído e confundirão as crianças.

Nesta zona, haverá logo de inicio um índice de tipos de exercícios que podem ser escolhidos. Os exercícios serão organizados em níveis de dificuldade e hierarquizados em termos de continuidade, podendo os utilizadores, assim, rapidamente chegar ao exercício que querem, sem perderem noção do local onde pararam a última vez. O índice poderá ter alguma metáfora associada, pois convém que as crianças consigam identificar o exercício sem terem que ler o nome deste. Cada exercício terá a sua própria “página”, devidamente intitulada e identificável, com a metáfora do índice, para localização posterior.

Os exercícios terão como base suportes visuais e também sonoros. Não vão ser edificados para serem utilizados pelas crianças por si só, mas será necessária a presença de um educando ou educador para que as tarefas sejam correctamente concretizadas, e para que as crianças não se sintam isoladas ao usar o software.

Intervenção – Dislexia Auditiva

Portanto, a intervenção adequada para a dislexia auditiva deverá basear-se em actividades que desenvolvam a percepção, discriminação e memória auditivas, mas sempre com referências visuais que ajudem a criança.

Como consequência, o meu projecto albergará exercícios deste género, os quais ainda não foram definidos com exactidão, mas que terão como base estas pequenas propostas de intervenção:

  • Batimento de sílabas de palavras
  • Reprodução de batimentos em sequência
  • Reprodução de sequências de 5/6 palavras: números, cores, flores, animais, cidades…
  • Rememorizar sons previamente escutados
  • Descoberta de semelhanças/diferenças entre sons
  • Discriminação de fonemas: v/f; d/t; p/t; ch/j; b/d; c/g; m/n; b/v; …
  • Escrita de fonemas ditados
  • Preenchimento de lacunas em palavras, frases e poemas (tendo em conta a rima)
  • Escrita de sílabas sem nexo, contento dígrafos: pre/per; cla/cal; dri/dir; flo/fol; gri/gir; pla/pal; tro/tor; fri/fir; tre/ter; pró/por; glo/gol; …
  • Ditado de sílabas sem nexo, contendo dígrafos: frolar / clafir / topre /topra / toper / floper / flotre / clafre / trifla / …
  • Exercícios de reprodução oral de frases cada vez mais complicadas e ordens complexas que envolvem várias acções
  • Exercícios de figura-fundo auditivo
  • Memorização de rimas e lengalengas
  • Análise e síntese de palavras, sílaba a sílaba e letra a letra
  • Identificação de palavras com inícios/finais omissos
  • Descoberta de absurdos auditivos em frases ou sequências de palavras (ex: “O gelado está quente.”)
  • Organização de famílias de palavras
  • Reconhecimento de sons de instrumentos musicais
  • Descrição de imagens

Conclusão

O projecto ainda não está muito avançado, e terei que gastar muito do meu tempo a criar/transformar exercícios para suporte digital. No entanto, vou tentar recorrer à ajuda da Dra. Helena Serra, cuja ajuda foi preciosa para a formulação deste modelo conceptual. Como um projecto de diagnóstico de dislexia está a ser criado por ela e por outro docente da Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, vou tentar encontrar conteúdos em comum que eu possa usar neste trabalho, para que fique o mais completo possível.

3 comentários

  1. Celia said,

    Este conteudo é muito bom. Espero ler mais a respeito.

  2. Bruno Giesteira said,

    Muito bem Lúcia,

    O Modelo Conceptual deve ser encarado como uma ferramenta útil para optimizar o trabalho em equipa antes de despender tempo e dinheiro com protótipos inadequados… A hipotética equipa de desenvolvimento deverá estar sintonizada quanto ao estado, funcionamento e aspecto do produto de forma a, inclusive, alocar o desenvolvimento de diferentes conteúdos a grupos de trabalho distintos.
    Tendo isto em consideração, o Modelo Conceptual poderá ainda estar mais depurado… Em todo o caso, julgo estar já em condições de ser acompanhado com alguns protótipos (esboços, ou layouts gráfica e tecnologicamente mais depurados…).

    Nota: aguardo igualmente o “post” relativo aos testes de usabilidade.

    Bom trabalho!
    Bruno Giesteira

  3. Luciana Freitas said,

    Parabéns!! Excelente

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