Projecto Final – Dislexia – Parte 1
Teoria Mínima Sobre a Dislexia
De todas as dificuldades de aprendizagem, a dislexia é uma das que mais tem interessado psicólogos, pedagogos, pediatras e outros profissionais interessados no sucesso e/ou insucesso educativo.
Etimologicamente, a palavra dislexia significa ter dificuldades na linguagem. Na acepção actual refere-se a problemas de leitura, ou seja, transtorno na aquisição da leitura.
Pode definir-se dislexia como sendo “uma dificuldade duradoura na aprendizagem da leitura e aquisição do mecanismo, em crianças inteligentes, escolarizadas, sem qualquer perturbação sensorial e psíquica já existente” (Fonseca, 1999). Ou ainda como “uma desordem, que se manifesta pela dificuldade de aprender a ler, apesar de a instrução ser a convencional, a dificuldade de aprender a ler, apesar de a instrução ser a convencional, a inteligência normal, e das oportunidades socioculturais. Depende de distúrbios cognitivos fundamentais, que são, frequentemente, de origem constitucional” (Critchley & Critchley, 1978).
Mas o Modelo Conceptual do trabalho que me propus a criar não se prende com o diagnóstico do problema. Fiquei entusiasmada ao saber que profissionais da área de Ensino Especial já estão a desenvolver mecanismos digitais de detecção deste problema. Como complemento a este projecto, o meu trabalho irá ter como objectivo a intervenção, a ajuda às crianças de 6/7/8 anos a quem já foi diagnosticada esta condição.
Há vários estudos sobre a dislexia, e são, na maioria, muito diferentes no que toca às causas da dislexia. No entanto, como esta parte não tem directamente a ver com o meu projecto, não a vou considerar nesta análise.
O que já me diz respeito são os estudos sobre os diferentes tipos de dislexia. Segundo González (1996), há dois tipos de dislexia, em função da alteração primária linguística ou visuoperceptiva:
- Dislexia do tipo auditivo-linguístico, com problemas fonológicos acentuados e que implicam disfunção do hemisfério esquerdo.
- Dislexia do tipo visuo-perceptivo, com problemas visuo-espaciais e visuo-perceptivos, implicando disfunção do hemisfério direito.
Há também autores que referem um terceiro tipo de dislexia, a mista, que combina os dois tipos que referi acima.
No entanto, como refere González, todos os tipos de dislexia têm uma tónica comum, que é o facto de a dislexia ser, em si mesmo, um problema eminentemente linguístico em que a leitura/escrita se apresenta problematizada ou ao nível fonológico, ou ao sequencial ou ao visual.
Defini que o meu projecto terá como objecto a dislexia do tipo auditivo-linguístico. Daí achar importante descrever um pouco este tipo de dislexia.
Dislexia Auditiva
Características gerais do comportamento
- Dificuldades subtis na discriminação de sons
- Não associação dos símbolos gráficos às suas componentes auditivas
- Não realização dos fonemas com monemas (parte com o todo da palavra)
- Confusão entre sílabas iniciais, intermédias e finais
- Problemas de percepção auditiva
- Problemas de articulação
- Dificuldades em seguir orientações e instruções
- Dificuldades de memorização auditiva
- Problemas de atenção
- Dificuldades de comunicação verbal
Modelo conceptual
O Modelo Conceptual deste projecto ainda está numa fase bastante imatura, no entanto, algumas decisões já foram feitas no que se refere à formulação deste modelo.
Em primeiro lugar é preciso definir que o CD-ROM em questão terá duas áreas completamente distintas em termos de conteúdo. Por um lado, a área dedicada aos pais e educadores que irão usar esta plataforma de forma a ajudar crianças com dislexia. Por outro, os exercícios direccionados a essas mesmas crianças.
O CD-ROM será optimizado para a resolução 1024×768, por ser o mais recorrente em estabelecimentos de ensino e computadores pessoais mais recentes.
Na área dirigida aos pais e educadores, o conteúdo será relacionado com a utilização e limitações do CD, as especificidades das crianças que sofrem este tipo de problemas, etc…
Em termos de design, vai ser algo muito sóbrio e muito prático, sem metáforas muito complexas, como simples setas e desenhos muito figurativos do que um certo botão faz.
As tarefas serão accionadas através de cliques, algo muito directo e fácil de usar, que não coloque entraves a nível de usabilidade. Já foi feito um pequeno esboço daquilo que será esta plataforma, mas sem o uso de metáforas. Simplesmente uma pequena ideia a nível de design.
Na parte que se refere às crianças, há vários elementos a ter-se em conta. Primeiro, em cada 9 disléxicos, só um é do sexo feminino. Logo o design terá algo a ver com o sexo masculino e as suas preferências nas idades 6/7/8 anos.
Não haverá animações, o design será muito directo, para que não seja ainda mais recorrente o factor distractivo tão inerente às crianças disléxicas. No entanto, os exercícios (descritos mais abaixo) terão que ser apelativos a crianças com estas características. As cores e as fontes serão personalizáveis. Os fundos serão simplesmente uma cor sólida, pois padrões serão apenas ruído e confundirão as crianças.
Nesta zona, haverá logo de inicio um índice de tipos de exercícios que podem ser escolhidos. Os exercícios serão organizados em níveis de dificuldade e hierarquizados em termos de continuidade, podendo os utilizadores, assim, rapidamente chegar ao exercício que querem, sem perderem noção do local onde pararam a última vez. O índice poderá ter alguma metáfora associada, pois convém que as crianças consigam identificar o exercício sem terem que ler o nome deste. Cada exercício terá a sua própria “página”, devidamente intitulada e identificável, com a metáfora do índice, para localização posterior.
Os exercícios terão como base suportes visuais e também sonoros. Não vão ser edificados para serem utilizados pelas crianças por si só, mas será necessária a presença de um educando ou educador para que as tarefas sejam correctamente concretizadas, e para que as crianças não se sintam isoladas ao usar o software.
Intervenção – Dislexia Auditiva
Portanto, a intervenção adequada para a dislexia auditiva deverá basear-se em actividades que desenvolvam a percepção, discriminação e memória auditivas, mas sempre com referências visuais que ajudem a criança.
Como consequência, o meu projecto albergará exercícios deste género, os quais ainda não foram definidos com exactidão, mas que terão como base estas pequenas propostas de intervenção:
- Batimento de sílabas de palavras
- Reprodução de batimentos em sequência
- Reprodução de sequências de 5/6 palavras: números, cores, flores, animais, cidades…
- Rememorizar sons previamente escutados
- Descoberta de semelhanças/diferenças entre sons
- Discriminação de fonemas: v/f; d/t; p/t; ch/j; b/d; c/g; m/n; b/v; …
- Escrita de fonemas ditados
- Preenchimento de lacunas em palavras, frases e poemas (tendo em conta a rima)
- Escrita de sílabas sem nexo, contento dígrafos: pre/per; cla/cal; dri/dir; flo/fol; gri/gir; pla/pal; tro/tor; fri/fir; tre/ter; pró/por; glo/gol; …
- Ditado de sílabas sem nexo, contendo dígrafos: frolar / clafir / topre /topra / toper / floper / flotre / clafre / trifla / …
- Exercícios de reprodução oral de frases cada vez mais complicadas e ordens complexas que envolvem várias acções
- Exercícios de figura-fundo auditivo
- Memorização de rimas e lengalengas
- Análise e síntese de palavras, sílaba a sílaba e letra a letra
- Identificação de palavras com inícios/finais omissos
- Descoberta de absurdos auditivos em frases ou sequências de palavras (ex: “O gelado está quente.”)
- Organização de famílias de palavras
- Reconhecimento de sons de instrumentos musicais
- Descrição de imagens
Conclusão
O projecto ainda não está muito avançado, e terei que gastar muito do meu tempo a criar/transformar exercícios para suporte digital. No entanto, vou tentar recorrer à ajuda da Dra. Helena Serra, cuja ajuda foi preciosa para a formulação deste modelo conceptual. Como um projecto de diagnóstico de dislexia está a ser criado por ela e por outro docente da Escola Superior de Educação de Paula Frassinetti, vou tentar encontrar conteúdos em comum que eu possa usar neste trabalho, para que fique o mais completo possível.
